George Ezra: “Estou tentando descobrir quem eu sou e o que é importante para mim”

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Image taken from/imagem obtida em: The Wideo. Photographer/Fotógrafo: Findlay Macdonald

O cantor está em primeiro lugar nas paradas com “o som do verão” Shotgun, mas ano passado sua carreira chegou perto de acabar – e ele diz que foi a melhor coisa que aconteceu com ele.

Pop Stars caminham entre nós mais do que podemos imaginar, graças a bonés e óculos escuros. Mas a versão de George Ezra do clássico disfarce é mais prática – um chapéu caqui com abas largas de uma companhia de produtos esportivos, combinado com um par de óculos escuros, com armação estilo camuflagem que ele conseguiu em um posto de gasolina – contudo, estiloso não é. Na realidade, com a sua camiseta branca da NASA, a combinação faz ele parecer o avatar do Twitter de um homem que retweeta Piers Morgan. “As pessoas olham para mim”, ele admite, enquanto nos sentamos no café perto da sua casa no leste de Londres, “mas só por que eu pareço horrível”.

São 10:30 e hoje Ezra, de 25 anos, está em uma correria de compromissos pelas rádios Magic, Absolute, Radio 1 e Radio 2. O disfarce valerá a pena já que iremos a pé e por transporte público. “Se você não se importar”, Ezra sugeriu, “Eu acho que vou de ônibus hoje”.

Normalmente, um artista multi-platina viajando com um jornalista desta maneira, faria isso para provar o quão humilde ele é, apesar de todos os álbuns número um de vendas (Ezra tem dois, incluindo Staying at Tamara’s, álbum novo de maior vendas de 2018) e os singles no topo de paradas (seu último, Shotgun, é tão certo de estar na primeira posição no dia seguinte, que ele até já organizou um churrasco da vitória para os seus amigos em Hertfordshire). Mas nesse caso, assim como a alça de pescoço balançando do chapéu de Ezra, parece que a questão é a praticidade.

Em posição de destaque na Edição N° 94 [do The Guardian], Ezra reflete sobre a quase-confirmada ascensão de Shotgun à primeira posição das paradas. Sua predecessora, a efervescente Paradise lançada em Janeiro deste ano, foi um grande sucesso, mas ano passado sua carreira chegou perto de acabar. Em Junho do ano passado, seguindo o lançamento do terceiro álbum mais bem vendido de 2014, Wanted on Voyage, Ezra estava pronto para retornar e lançar seu novo single Don’t Matter Now. É difícil, na era do streaming, definir o que exatamente constitui um hit, mas também é difícil ver positivamente uma música que fica duas semanas no top 70, o ponto alto Don’t Matter Now de nas paradas.

Isso foi o contrário do que aconteceu com o primeiro single de Ezra, Budapest, que o lançou para o estrelato apesar de ser originalmente lançada de graça: Don’t Matter Now flopou. “A música recebeu muito apoio da mídia”, diz Ezra. “As pessoas só não queriam ouvi-la”.

Tivemos uma reunião de emergência – “e só por que eu insisti” – na gravadora de George, a Columbia. “Nós podemos ser totalmente honestos sobre o que está acontecendo?” ele perguntou na sala. Foi sugerido que o álbum, previsto para o final de 2017, fosse adiado para 2018. “Eu disse: ‘Não perderemos o momento?’ Alguém se levantou e falou: ‘Não existe porra nenhuma de momento’” O álbum foi adiado.

Esse episódio forçou Ezra a reavaliar sua abordagem “tanto faz” para o sucesso: Ele nem sabia que a votação para o BBC Sound of… existia até que foi indicado nela, e em uma entrevista ele afirmara que não se importava se sua carreira durasse 2 ou 12 anos.“Eu não quero soar como a frase motivacional na parede da sala da direção do ensino fundamental, mas Don’t Matter Now flopar foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido. Eu percebi o quanto eu não estava levando [a carreira] a sério”.

Ele viu o que é o fracasso e, para ser sincero, não gostou muito. Ele começou até a pensar em carreiras alternativas “Uma coisa é ter um single que não funciona, mas dois em seguida é um sinal do fim.” e ele continua “Quando estávamos lançando Paradise, eu falei, em voz alta: ‘Eu vou dar tudo que eu tenho’”.

Paradise foi uma música pop escrita de forma tão firme, tão sabiamente estruturada, que pareceu o tipo de sucesso de multi-compositores que artistas de grandes gravadoras tiram da cartola quando estão no aperto; de fato, foi o primeiro single que Ezra escreveu sozinho (a maior parte de suas músicas foram coescritas com Joel Pott). Então foi superjustificado quando o single se tornou o mais bem posicionado nas paradas até então, ocupando o lugar número 2.

Chegamos então no QG da Bauer Radio, casa da Absolute e da Magic, onde Ezra realiza uma pequena apresentação para os ganhadores de uma competição. Depois disso, ele conta que algumas vezes dá ao público o que ele chama de “uma noite com George Ezra”, onde ele entra totalmente no modo “contador de histórias”. Às vezes funciona, ele conta, e às vezes não; de todo jeito, ele se destaca de artistas que você poderia dizer que são da mesma “vibe” que ele, como os também ex-alunos da BIMM Tom Odell e James Bay – por que seu papo é tão envolvente quanto suas músicas.

O desejo de mostrar personalidade se estendeu a coisas como um vídeo promocional de merchandising online tão estranho que garantiu a Ezra um lugar no Vic & Bob’s Big Night Out. Ainda tem seu podcast, onde ele bate um papo com artistas incluindo Elton John e Ed Sheeran.

“Se você zuou a si mesmo, ninguém mais poderá te zoar” Ezra pondera “Mas não é uma coisa que você pode forçar ou recriar. Outro dia, alguém da gravadora me ligou dizendo: ‘‘O que você acha de tuitar ao vivo o programa Love Island?” e eu fiquei tipo: ‘‘Er, eu tenho muito o que fazer’”.

Não que Ezra não seja avesso à ideia de que um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Seu álbum de estreia foi principalmente baseado em suas viagens internacionais; A narrativa principal do Staying at Tamara’s é sobre ele indo sozinho para Barcelona, onde o Airbnb no qual ficou se revelou um antro de criatividade boemia. Não o preocupa que ele necessite se inserir em situações para que a criatividade surja? Ele tem que inventar situações para seu pop estruturado na realidade por que ele realmente não tem nada a dizer?

É mais uma questão de se colocar em lugares onde até ideias mundanas parecem interessantes, Ezra explica. Mas parece possível que a necessidade de aventuras e sua abordagem “pegue ou largue” a respeito da ambição, tenha raízes na sua criação confortável e segura, na semi-rural Hertfordshire. Ele nunca sentiu necessidade de escapar. Ou como ele coloca: “Eu nunca tive grandes sonhos quando criança. Eu era tão feliz que não precisava deles.”

Com Ezra disfarçado de novo, voltamos pela Soho em direção à BBC, e falamos um pouco mais sobre sua infância. O drama principal parece ter sido o estirão de crescimento na adolescência que levou-o a ter má postura (“Tudo que eu queria era não me destacar”) isso ainda afeta sua postura até hoje. Ele não acredita que tenha sido influenciado negativamente pelo divórcio de seus pais, ambos professores, quando ele tinha 14: “Pela primeira vez, eu os vi como humanos, com sua própria merda acontecendo – me fez extremamente bem.” Nada de delinquência juvenil? “Bom,” ele diz. “Quando criança eu costumava correr por campos de trigo…” Então, tem algo a mais em George Ezra além do que podemos ver? “Eu também estou tentando saber a resposta para essa pergunta”, ele admite. “Eu não sou um garoto e não sou um homem.”

Ezra diz que começou a questionar tudo isso desde que entrou para uma indústria que fetichiza o gênio torturado. “Isso costumava passar pela minha cabeça assim que comecei na música: Eu posso pelo menos admitir que eu tive uma adolescência ruim?” Eu me pergunto se a confusão que várias pessoas têm na adolescência é a mesma que estou experimentando agora. Eu estou tentando descobrir quem eu sou e entender o que é importante para mim. É exaustivo.”

Entre as idades de 21 e 23, Ezra experimentou o que ele descreve de “um agudo sentimento de inutilidade”. Ele não se deu conta durante a promoção de seu primeiro álbum – apesar dele ter pensado muito nisso desde então – de que durante todo esse período, ele estava se escondendo em camarins e áreas de backstage, relutante em encontrar seus próprios fãs. “Eu ficava pensando: ‘eu posso ficar no meu cantinho seguro no camarim, logo, não tenho que confrontar nada, logo, nada aconteceu’.” Então veio o onipotente desastre político e cultural que foi 2016. “Pareceu que qualquer coisa que poderia ter dado errado deu errado – pareceu o mundo errado para se estar se você é sensível. Ninguém na minha vida, amigos ou família ou a mídia, tinha alguma resposta.”

Ezra também sabia que tinha que compôr seu segundo álbum, mas isso não estava acontecendo. Ele caiu no padrão habitual de pensamentos que ele descreve “como uma cobra comendo a si mesma”. A vida sem estrutura de um Pop Star entre álbuns não ajudou. “Eu programaria o despertador, acordaria, desceria as escadas para escrever, nada vinha, então eu só fazia coisas sem sentido. Eu limpava a casa. Todo santo dia. Eu inventava coisas para fazer. Listas de coisas que não precisavam existir.”

Ficar na Tamara, em Barcelona, acabou por ajudar na criatividade e no reajuste mental que ele estava procurando, e os padrões de pensamento que o incomodavam começaram a se dissipar. Ele fica receoso em gerar manchetes “Meu inferno de ansiedade”, parcialmente porque houve algumas nos últimos meses, e ele ficou surpreso (“Eu era ou ignorante ou inocente”) em como a mídia pulou de cabeça no jeito que ele discutiu saúde mental. E parcialmente por que ele sabe que, no geral, sua experiência não foi grave e que a solução foi bem simples. “Mas mesmo quando as pessoas que passam por menos, ainda é alguma coisa”, ele explica. Então, quando o instituto sem fins lucrativos em prol de saúde mental Mind perguntou se ele consideraria ser um embaixador, ele disse que sim.

Depois de um breve papo ao vivo com Greg James da Radio 1, no qual Shotgun se tornou um divertido hino de futebol, Ezra teve sua foto tirada para o site da Official Charts [responsável pelos dados oficiais das paradas de sucesso britânicas], sugerindo sua posição de número um quase que certa. Quando nos falamos alguns dias depois, Shotgun está no topo das paradas. Ezra liga enquanto está andando até a farmácia, atrás de alguns comprimidos para febre alta. Sim, ele confirma, ele está usando seu chapéu horroroso e seus óculos. Depois que nos separamos na BBC, ele assistiu à partida da Inglaterra em um trem de volta para Hertford; a noite terminou com uma sessão inesperada no porão dele, tocando covers do Dylan com seu pai e seus amigos até 1 da manhã.

Já o churrasco comemorativo na sexta à noite – Bom, esse foi uma desordem. “O ângulo olhe-para-mim-eu-sou-o-número-um não funcionou de acordo com o plano,” ele admite. “Um amigo levantou o copo e disse, ‘Parabéns ao George por ser o número 1,’ mas aí outro falou, ‘Pera aí, você já não foi número 1 antes?’ E eu respondi, ‘Não, esse foi meu álbum.’ Então eles falaram: ‘Isso não é melhor que um single? São 12 músicas, não uma’ e eu disse: ‘Bom, mais ou menos, mais um single é mais difícil,’ e então o momento já tinha passado e eu tive que mudar de assunto.”

Eles acabaram jogando baralho, depois acenderam uma lanterna de papel – mas Ezra vetou que a soltassem: o clima quente deixou o campo seco e ele não queria ser responsável por um incêndio. Apesar disso, a comida desceu bem. Ele até preparou uma salada. E no momento exato em que ele soube que era com certeza o número 1, ele relembra um breve momento de clareza. “Só durou um segundo, então sumiu, mas tudo fazia sentido,” ele diz.

“Pareceu surreal. E foi engraçado, Você tem que rir, não é?”


A matéria acima foi produzida e postada no site do The Guardian, em sua área de Cultura e Música. Ela é datada de 06 de Julho de 2018 e foi escrita por Peter Robinson, jornalista do site. Esta tradução foi feita apenas para o deleite e entendimento de fãs brasileiros do George Ezra e não tem nenhum fim lucrativo. Por favor, se reutilizar esta tradução, fazê-la com os devidos créditos.

Entrevista Original: Clique aqui.


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