O garoto encontra o mundo

Image taken from/imagem obtida em: Ambient Light.

É George Ezra o cantor mais bonzinho do rock ‘n’ roll? Jonny Ensall parte em busca do lado mais selvagem do trovador nômade

São 10:30 da manhã e George Ezra está agitado. “Eu sou relativamente novo no mundo do café”, diz ele, com um grande sorriso atrevido estampado em seu rosto. “Mas você pode sobreviver por horas com essa coisa”. Ele tomou duas xícaras até agora, o louco. Como se planejado, uma música começa a tocar na rádio do estúdio no norte de Londres onde ele está sendo fotografado – ‘Walk on the Wild Side’ por Lou Reed.
  
Há uma pequena confusão sobre os figurinos, enquanto o fotógrafo se prepara para a sessão de fotos de Ezra para a NME. Estrela e estilista escolhem o casaco longo preto, tendo por acessório uma caneca branca comum. É um look que se inspira em Johnny Cash e no estagiário que traz o chá. Ezra encara as lentes com a contida indolência de alguém que sabe exatamente como um rockstar deve parecer ao segurar uma caneca em uma sessão de fotos. Quando, eventualmente, eu me aproximo [dele], percebo que – neste caso – a câmera não mente: sua pele é realmente muito lisa, quase sem poros; seu cabelo louro é realmente tão suave e fofo quanto um patinho. “Eu estou ligado”, ele diz. “Pergunte-me qualquer coisa!”

Ezra está sofrendo com um resfriado severo – me conta seu preocupado assessor. Mas onde outros de sua linha de trabalho lidam com drogas pesadas, ou simplesmente não comparecem à entrevistas, George está feliz em simplesmente pedir outro cappuccino e sentar para conversar. Eu quero perguntar para ele sobre sexo, drogas e rock ‘n’ roll, mas ele parece muito saudável para isso. E muito bem sucedido também. Depois do lançamento de seu álbum de estreia, ‘Wanted On Voyage’, em 2014, a carreira de Ezra alavancou de uma maneira chocante. Apenas Ed Sheeran e Sam Smith venderam mais do que ele naquele ano. “Não houve um ponto em que eu estivesse como: ‘Isso faz sentido,'” ele diz. “Faz sentido que as coisas não façam sentido, é o que eu aprendi.”

Então, em vez disso, eu pergunto a ele sobre viajar e seu mais novo álbum, ‘Staying at Tamara’s’, que levou quatro anos para aparecer. Em ‘Wanted On Voyage’, Ezra canalizou sua obsessão de infância por Bob Dylan com canções otimistas, baseadas em acordes de guitarra, que falam sobre amor, esforço juvenil e sonhos em cidades europeias distantes. Foi o som perfeito para embalar as férias de alguém nos seus 20 e poucos anos. Sobre o quê é este novo álbum, eu pergunto? “A temárica maior é escapismo,” ele diz, inclinando-se em minha direção. “Quando você está em turnê tem uma existência bonita, mas aí, é cuspido do outro lado e não há nada. Tudo o que eu podia contar com, era minha criatividade, e eu não sou alguém que consegue simplesmente acordar e escrever uma música.”

Contudo, isso é exatamente o que ele tentou fazer. Tendo passado dois anos inteiros em turnê com seu primeiro grande álbum, incluindo uma performance diurna no palco Pyramid do festival Glastonbury, para uma plateia imensa, Ezra caiu em um ciclo vicioso de assistir TV, mexer no celular e dormir cedo na casa de sua família, em Hertford, ele me conta. “Todo dia eu acordava tentando escrever. E todas as noites eu colocava minha cabeça no travesseiro e pensava: Eu tentei fazer algo hoje e falhei. Eu me sentia inútil.”

A cura para esse mal foi, como se vê, sair de férias nos seus 20 e poucos anos e ver alguns dos lugares, como Budapest e Barcelona, que ele havia escrito músicas sobre, mas nunca visitado devidamente. Em Barça, ele se escondeu em um barato e esquisito AirBnB, cheio de vinis antigos e artistas boêmios. “Foi uma viagem tão maravilhosa,” ele diz. “Eu pensei, George, não seria mais divertido se você fosse morar com um estranho? E foi.”

Esse estranho foi a Tamara, e a viagem – juntamente com outras escapadas para locais menos exóticos, incluindo uma fazendo de porcos em Norfolk e uma pousada na Ilha de Skye – deram a Ezra o que sua música precisava: tranquilidade. “Eu estava em uma cidade onde ninguém me conhecia, e não tinha compromissos. Eu levantava e andava por aí, preenchendo cadernos. Você é forçado a abordar seus pensamentos, não pode suprimí-los.”

“Ansiedade é o nome que encontrei para o que estava sentindo,” ele continua. “Em casa eu ia para a cama ás 11 em ponto, e as notícias mostravam algo acontecendo do outro lado do mundo. E eu começava a achar que não estava fazendo o suficiente. Mas o que você pode fazer? Está de pijamas em casa. É maior do que você. Você pode ser parte de alguma coisa, mas não está tudo sobre seus ombros. E foi a viagem a Barcelona que me fez pensar: ‘Po**a, você não precisa estar constantemente atento a tudo que está acontecendo.’”

Esse pensamento se transformou na canção, ‘Don’t Matter Now’ – primeiro single do ‘Staying at Tamara’s’. “Ás vezes você precisa estar sozinho,” ele canta com sua voz incorpada de barítono, sobre um riff ensolarado. “Fechar a porta, desligar o celular.”

“O que eu tento entender é se tudo isso que estou passando, não é por causa do mundo e eu, mas sim porque tenho 24 anos.” Como uma crise de meia-idade, eu sugiro? “Sim, tipo, eu não sou um menino, nem um homem. Sou algo no meio deles. O que você é, George? Um homem-menino? É assim que eu me sinto.” Quando você se tornará um homem, então? “Minha risada tem que parar antes que eu possa me chamar de homem. É muito engraçado.”

Com certeza, há algo juvenil em Ezra. Ele é o que sua tia chamaria de um jovem rapaz muito bom. Ele descreve sua música como “amigável”, o que consigo entender, já que passei a manhã inteira, sem perceber, assobiando o ritmo de ‘Budapest’ – uma canção tão calorosa e familiar que você poderia fazer chocolate quente a partir dela. Ele a compôs no final de sua adolescência, quando a vida era simples, e ele estava começando a gostar de estar na estrada. “Nas primeiras pequenas turnês, na parte de trás de uma van, quando você está tentando ganhar uma audiência,” ele lembra, “você se sente como se estivesse vivendo fora da lei. Você não está fazendo nada de errado, mas é algo como – ninguém se importa. Você é esta coisa durante a noite.”

E então eu percebo que Ezra fez tudo certo em sua carreira até agora. Ele desistiu da faculdade em Bristol mas conseguiu um contrato com a gravadora Columbia. Ele não apressou seu complicado segundo álbum. Tornou-se patrono de uma instituição de caridade sobre saúde mental, Mind. Onde está o excesso, eu pergunto? Onde estão as montanhas de cocaína? Onde está o sanitário de ouro? “Muita coisa depende de mim, em minhas apresentações,” ele considera, com tristeza. “É apenas maior do que eu, tudo.”

Esta, geralmente, é a parte da entrevista em que o rockstar começa a reclamar sobre como é difícil ser um rockstar, mas não há nada disso vindo de Ezra, que sabe que seus fãs acham que ele aparece para seus shows com apenas 10 minutos de antecedência, e o vêem como um trovador livre, não como o cara trabalhador de uma enorme empresa comercial: “Nossa indústria depende de tanta fumaça e espelhos, e eu gosto disso. Você não quer saber como a salsicha é feita.”

Do contrário, ele deposita sua energia nessa espécie de serviço de aconselhamento não-oficial para músicos extremamente bem-sucedidos, o qual foi inteligentemente desfarçado como uma série popular de podcasts que ele chama de George Ezra and Friends. Até agora, Ezra recebeu Ed Sheeran, Rag’n’Bone Man e o primeiro e único Craig David, para conversar sobre os altos e baixos do show business. Como são os convidados, eu pergunto?

Craig David é o cara mais otimista que eu já conheci. Ele tomou a liberdade de fazer um beatbox para mim – apenas eu e ele na sala. Foi perfeito. Por que não?” Essa foi a primeira vez (para Ezra – eu imagino que Craig David faça isso o tempo todo), mas há também um elo mais comum entre as conversas. “Sem exceção, as pessoas que entrevisto dizem:  ‘Eu amo o que faço. Claro, tive que perder funerais, casamentos, nascimentos… mas é um preço pequeno a pagar por ter o melhor emprego do mundo.’”

Como ele se sentiria se a grande aventura terminasse agora, eu me pergunto? E se ‘Staying at Tamara’s’ caísse mais rápido que o cabelo bem hidratado de Ezra? “Sinceramente, eu lidaria bem com isso. É muito mais fácil aceitar uma derrota quando você acredita no que fez.”

“Neste CD – e isso é meio que uma frase de m**da – eu fui mais sincero do que nunca. Não por causa de alguém, mas por mim mesmo. Acontece que eu estou apaixonado, e isso é algo maravilhoso para se escrever sobre.”

Apaixonado? Ezra já me contou sobre sua ex-namorada e “musa” para o primeiro álbum (“Quando eu estava tocando no palco Pyramid [Glastonbury], eu olhei para a plateia e a vi nos ombros de outro cara. Eu fiquei tipo, hmm…”). Onde ele conheceu sua atual? “Nós nos conhecemos em um festival, apenas de passagem. Estávamos na mesma cidade, e eu tentei minha sorte mandando uma mensagem para ela – ‘Gostaria de jantar comigo?’ – e eu acho que… é… ela veio. Sempre acontece quando você não está procurando companhia.”

“Eu não acho que você escreve uma canção de amor para alguém,” ele diz, quando eu pergunto se ela inspirou algumas das músicas românticas do álbum. “É mais você estando ciente do sentimento que eles te dão. Eu nunca fui do tipo, ‘senta aí, eu tenho algo para tocar para você – essa é para você’.”

Nós temos que terminar a conversa agora, porque Ezra está seguindo a agenda extremamente apertada e controlada de uma pessoa muito bem sucedida, e precisa estar em um carro, indo para algum lugar, e provavelmente tomando algum chá no caminho. Ele aperta minha mão firmemente, com outro sorriso de orelha a orelha e me deixa pensando sobre algumas linhas da canção ‘Pretty Shining People’ – a super animada abertura do ‘Staying at Tamara’s’ – a qual ele diz conter seu trecho favorito do álbum inteiro.

Nos revezamos em sonhar sobre a loteria / O que faríamos se tivéssemos comprado bilhetes e ganhado / Estamos ambos convencidos que nada teria mudado / Mas se esse fosse o caso, porque estamos tendo esta conversa então? / Estamos perdendo o tato?

Eu sinto como se tivesse acabado de conhecer alguém que ganhou em um tipo de loteria. E ele parece ter tato comigo.

George fala ainda sobre os melhores convidados que recebeu no George Ezra and Friends:

ED SHEERAN

“Algo que eu acho que já sabia sobre o Ed, mas que realmente ficou comigo depois de encontrar com ele, é que você nunca é bem-sucedido demais para trabalhar duro. A menos que você acorde e promova sua música, as pessoas não irão ouví-la.”

HANNAH REID (Vocalista do London Grammar)

“Hannah tem um grande entendimento sobre sí mesma e do que é necessário para se manter feliz e saudável. Eu acho que todos nós poderíamos ter um pouco mais disso.”

CRAIG DAVID

“Eu sempre me considerei uma pessoa moderadamente otimista, mas o Craig está em um nível completamente diferente. Ele me deu uma grande lição sobre ‘viver no momento’.”


A matéria acima foi produzida e postada no site da NME Magazine, em sua área de Música. Ela é datada de 16 de Março de 2018 e foi escrita por Jonny Ensall, jornalista musical do site. Esta tradução foi feita apenas para o deleite e entendimento de fãs brasileiros do George Ezra e não tem nenhum fim lucrativo. Por favor, se reutilizar esta tradução, fazê-la com os devidos créditos.

Matéria Original: Clique aqui.


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